Bailarino Tiago Barreiros

Ontem à tarde, dei por mim a caminhar no jardim do meu bairro, sem mochila às costas, nem música nos ouvidos, apenas focado no ato de andar para descomprimir das horas seguidas à frente do ecrã do meu computador, atento ao que me rodeava. Tudo era no seu geral a beleza que nos passa despercebida nas maratonas diárias entre as obrigações e compromissos a que nos propomos, desde a natureza manifestada em árvores altas e perfumes de flores, a crianças e velhinhos a brincar e jogar às cartas, as famílias de patos a nadar no lago… A necessidade latente de as contemplar e sentir, como quem põe os pés na areia num primeiro dia de praia, rapidamente põe em causa as decisões que tomo todas as manhãs em sair de casa bem cedo para ir correr atrás de um autocarro. Mas afinal, não são estas cegas obrigações senão escolhas feitas por mim?

 

O meu nome é Tiago e sou trabalhador-estudante. Tenho 23 anos e, ao mesmo tempo que trabalho como bailarino na Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, estou a tirar uma licenciatura em Artes e Humanidades na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre as longas horas no estúdio a ensaiar e ter que escrever trabalhos para a faculdade, de facto, pouco é o tempo para me dar ao luxo que usufruí ontem à tarde, mas não posso desconsiderar as horas maravilhosas que ganho a aprender. Por mais que o dia tenha 24 horas e eu não possa mexer nos horários estabelecidos pelos outros, quando a vontade move montanhas, ela também relativiza as horas e assim o entusiasmo de ganhar sentido aos mistérios da vida, incluindo a minha própria função enquanto artista, torna os meus dias em missões para descobrir que sujeito quero ser.

 

Seria hipócrita se não reconhecesse a veracidade que desabafo nas primeiras linhas, mas a verdade é que o maior desafio que encontro de ano para ano é precisamente o equilíbrio dos meus dias. Sem ter a pretensão de saber mais ou melhor que alguém, acredito que os desafios a que me lanço inteiro são possíveis de concretizar sem sacrificar a minha saúde ou a dos que me rodeiam, não só pela fé de que aquilo que faço vai ao encontro dos valores que me constituem, como também pelos resultados que tenho obtido. E os resultados a que me refiro não são apenas os que constam no papel, mas principalmente os que revertem a favor da minha felicidade. Como se costuma dizer, “conhecimento é poder”, mas na minha ótica, conhecimento é liberdade e o que poderia ser maior fonte de energia senão esta imensa vontade de ser livre? De facto, é assim que entendo a energia extra que me surge nas manhãs para acordar mais cedo e ir estudar japonês, ou assistir a aulas de Filosofias na Ásia em atraso, ou ler sobre o Pós-Humanismo…

 

Mas sim, não vejo a hora de me poder atirar para o sofá e investir na arte de fazer nada, sem ter que estudar, ou então vá, para pelo menos poder ler um livro que simplesmente me apetece ler. Assim como mal posso esperar para dançar em palco ou ser capaz de discutir em japonês as correntes filosóficas do Japão, isto é, concretizar momentos de pura alegria que são frutos de grande trabalho e de um longo percurso de dedicação, que por vezes pode parecer cega.

 

Diz-se que a disciplina de um bailarino contribui para um maior foco no estudo académico ou em outras áreas que requerem uma profunda atenção e isso pode-se verificar tanto em vários bailarinos reformados que enveredam por novas profissões, tanto em alguns dos meus colegas desta companhia, que também se lançam em licenciaturas e mestrados, assim como numa carreira de fotografia, ou num negócio pessoal de artigos em tricot, mas tenho a certeza que antes de mais partilham comigo a mesma curiosidade do que está para além da dança, o que não significa o desprezo por esta arte, antes muito pelo contrário – se calhar até um maior valor e um melhor entendimento.

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